sábado, 8 de março de 2025

ORIGENS OPERÁRIAS DO 8 DE MARÇO

No início de 1917, em plena ebulição da primeira grande guerra na Europa, ocorreu uma grande manifestação liderada pelas mulheres da cidade de São Petersburgo, na Rússia, para denunciar a situação de miséria da população e protestar contra a participação dos russos na guerra. Foi o marco inicial do processo político que resultou na Revolução de Outubro no final deste mesmo ano.
O protesto aconteceu em 23 de fevereiro do antigo calendário juliano da Rússia czarista, que corresponde ao 8 de março no calendário gregoriano adotado pelos soviéticos em 1918. A data foi oficializada pelos revolucionários russos para celebrar a força da mulher trabalhadora e heroica.
Alguns anos antes, em 25 de março de 1911, a cidade de Nova Iorque havia presenciado um evento trágico que entrou para a história dos Estados Unidos, quando as operárias de uma fábrica de tecidos fizeram um movimento de greve para exigir melhores condições de trabalho.
Entre as reivindicações das grevistas estavam a redução da carga diária de trabalho para 10 horas (as fábricas exigiam 15 horas), a equiparação de salários com os homens (as mulheres chegavam a receber menos da metade do salário para executar o mesmo trabalho) e também o tratamento digno no ambiente de trabalho.
O movimento foi reprimido com extrema violência e crueldade. As mulheres que tinham ocupado o galpão da fábrica foram trancadas e ficaram presas, enquanto o galpão era criminosamente incendiado. 146 pessoas morreram carbonizadas, sendo 125 mulheres e 21 homens.
Na história do século XX há outras referências sobre a origem do dia internacional da mulher, sempre rememorando ações repressivas contra as mulheres em vários lugares do mundo.
No âmbito da campanha internacional de luta pelos direitos das mulheres, o dia 8 de março foi oficializado pela ONU em 1975, depois que a revolução cultural da década de 1960 colocou em definitivo a questão feminista na pauta dos debates políticos do mundo contemporâneo.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

GRANDE SERTÃO: A VIAGEM

Algumas viagens entram para a história, outras entram também para a literatura. Foi o que aconteceu com o escritor João Guimarães Rosa, quando, há 70 anos, em maio de 1952, ele se lançou numa empreitada pelo sertão mineiro que marcaria sua vida e sua obra.
Acompanhado de oito vaqueiros e levando 300 cabeças de gado, percorreu em dez dias os 240 quilômetros que separam Três Marias e Araçaí, na região central de Minas Gerais, sua terra natal. Trazia amarrada ao pescoço uma caderneta, onde anotava tudo que via e ouvia - as conversas com os vaqueiros, as sensações, as dificuldades e tudo que brotasse daquele mundo que ele reencontrava depois de anos vivendo como diplomata no exterior.
As cadernetas, hoje parte do acervo do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo, foram reunidas em dois diários, que Rosa chamou de A Boiada 1 e A Boiada 2. As anotações seriam utilizadas como elementos de suas próximas obras - entre elas, Corpo de Baile (lançado em 1956), Tutaméia (de 1967) e Grande Sertão: Veredas (1956).
No dia 16 de maio, o escritor chegava à fazenda Sirga, de seu primo Francisco Moreira, em Três Marias. Três dias mais tarde, a boiada partiria para a viagem, fazendo seu pouso em várias fazendas e vilarejos da região.
Rosa fez questão de acompanhar o dia-a-dia dos vaqueiros em tudo, comendo da mesma comida - carne-seca, toucinho, feijão e arroz com pequi - e dormindo nos mesmos locais. Em Barreiro do Mato, por exemplo, teria dormido dentro de uma grande forma de rapadura, um enorme tacho côncavo, e em vários outros locais passou a noite em colchões de palha de milho, comuns naquela época.
Já próximo a Cordisburgo, cidade em que nasceu e etapa final da viagem, a comitiva teve um encontro com uma equipe da revista O Cruzeiro, que cobria a viagem do já famoso autor de Sagarana, lançado em 1946.
As obras de Rosa possuem uma infinidade de referências diretas e indiretas à viagem de 1952. A principal delas está em Corpo de Baile, mais especificamente na novela "Uma Estória de Amor", inspirada na vida de Manuel Nardy, um dos oito integrantes da comitiva. Ele aparece transfigurado no personagem de Manuel Jesus Rodrigues, o Manuelzão. As semelhanças vão além do nome: estão em acontecimentos da vida do vaqueiro.
Outro vaqueiro que se destacou durante a viagem foi João Henrique Ribeiro, o Zito. Embora não tenha ficado tão famoso quanto Manuel, era Zito quem seguia o tempo todo ao lado do escritor.
Assumiu as funções de guia e de cozinheiro da tropa e tirava quase todas as dúvidas de Guimarães Rosa. Embora não tenha resultado na criação de um personagem, a relação entre Zito e o escritor também teve seu destaque na obra.
A perspicácia do vaqueiro chamou tanto a atenção de Rosa que, anos mais tarde, ele o homenagearia em Tutaméia, lançado no ano da morte do escritor. Em um dos quatro prefácios, Guimarães Rosa transcreve trechos de conversas com o vaqueiro e elogia sua inteligência e criatividade.
Dono de uma memória prodigiosa, Zito guardou detalhes da viagem de Guimarães Rosa que ajudaram a reconstituir cada passo da aventura vivida pelo escritor – incluindo nomes, lugares e datas. “Ele queria saber de tudo. Se visse aquele pau ali, queria saber o nome daquele pau. Se ouvisse uma conversa, queria saber do que a gente falava. E ia escrevendo tudo nas cadernetas que levava penduradas no pescoço”, disse, em 2001.
Segundo o vaqueiro, Rosa teria dito que pagaria seus estudos no Rio de Janeiro, proposta que ele recusou. “Queria mesmo era ser vaqueiro”. Zito morreu aos 65 anos, em 2002, em Três Marias. Foi o penúltimo dos oito vaqueiros da tropa a morrer – o último foi Sebastião Leite, em 2005.

*João Correia Filho.

R E M I N I S C Ê N C I A

Z I R A L D O

Nasci numa pequena cidade de Minas. Até aí nada demais. Muita gente nasce em cidades pequenas, distantes e quietas. Seria feliz, de qualquer maneira, se quem lê neste instante pudesse saber a alegria que existe em se nascer num lugar assim, em que as ruas pequenas e estreitas, as altas palmeiras, a água macia da chuva que cai sempre, as muitas estrelas e a lua, as pedrinhas das calçadas, a meninada, a carteira da sala de aula, a mestra e mais uma quantidade destas lembranças simples sejam, mais tarde, influências reais na vida da gente.
Na vida de quem, afinal, preferiu enfrentar a cidade grande: as águas desse mar, a luz dessas lâmpadas frias, a sala fechada, triste e sem perspectivas em que se ganha a vida, a cadeira quente e insegura das tardes de ir e vir — pura fadiga — das empresas, a luta, a dura luta de ser alguém, um peixe grande em mar estranhamente grande. A verdade é que, um dia, a pensar e refletir na grama macia da pracinha da matriz, a criança decidiu sair.
E a estrada se abriu a sua frente. Vir era uma idéia. Fixa. Caminhar era fácil.
A chegada: a rua imensa, as buzinas, as luzes, sinal verde, aquela cidade grande, grande ali, na sua frente. Cada face, cada ser que passava — pra lá e pra cá — inquietamente, tanta gente, suada, apressada, sem alegria, sem alma, a alma cerrada, enrustida, cada triste surpresa era a chegada.
Cheguei. Um táxi. A mala. As esquinas. Está bem, mas, que fazer? Sentei e pensei. Pela janela da casa alta vai a vida. Seria a vida? E disse a primeira frase na cidade grande, as primeiras palavras diante da grande luta e as palavras eram: Meu Deus, que saudade! E nem um dia me separava da pracinha da matriz. Cada dia que, a seguir, vi passar, esqueci.
Diante da máquina, neste instante, há uma distância imensa entre aquele dia na missa cantada na minha igrejinha e este dia em que, diante de mim, diante de minha mulher e da minha casa feita de cidade grande, minhas filhas brincam de ser gente grande.
E elas. Que vai ser delas? Sem palmeiras, sem um pai de ar grave; sem entender a chuva a cair em jardins humildes, nas margaridas branquinhas; sem entender de lua e de estrelas — que céu aqui, pra se ver nem se vê —, sem brincar na lama das ruas, a lama das chuvas, casca de palmeira, descer as barracas, nadar sem mamãe saber, nas águas escuras, fim de quintal, quintal, quintal? sem quintal? pedrinha de calçada, marcar a canivete sua inicial na carteira da sala. Ainda bem que nasceram meninas.
Já é diferente. Será que é? Sei lá. Entre a chegada e este instante, lembrança nenhuma. Sei que cheguei.
E sei mais: que esta página está é uma grande besteira, dura de cintura, sem graça, uma m... Já se vê que quem nasceu para caratinguense nunca chega a Rubem Braga. E também tem mais: quem é capaz de escrever uma página literária decente — igual a essa — sem usar uma vez sequer a letra O?

─ Crônicas Mineiras, Editora Ática, 1984.

domingo, 9 de fevereiro de 2025

O FALSO DEUS DO NACIONALISMO

*Martin Luther King Jr.

A época que vivemos é aquela em que os homens se afastaram do Deus Eterno ─ o Criador do Universo  e decidiram adorar no santuário do deus do nacionalismo.
Estamos todos já familiarizados com o credo desta nova religião: ela afirma que cada nação é uma unidade soberana e absoluta, que não reconhece nenhum controle, salvo sua própria vontade independente. A palavra de ordem desta nova religião é: “Meu país está certo (*à direita) ou errado".
Esta nova religião tem seus profetas e pregadores bem conhecidos. Na Alemanha, foi pregado por Hitler; na Itália, foi pregado por Mussolini. E nos Estados Unidos está sendo pregado pelos McCarthys e os Jenners, pelos defensores da supremacia branca e por movimentos como o "America First".
Não se pode adorar este falso deus do nacionalismo e o Deus do cristianismo ao mesmo tempo. Os dois são incompatíveis e toda a dialética da Lógica não pode fazê-los existir juntos. Nós devemos escolher a quem serviremos.
Continuaremos a servir o falso deus que coloca a soberania nacional absoluta em primeiro lugar ou serviremos ao Deus para quem não há leste nem oeste?
Será que continuaremos a servir ao falso deus da ganância imperialista ou serviremos ao Deus que faz do amor a chave que abre a porta da paz e da segurança?
Continuaremos a servir o falso deus do preconceito racial ou serviremos ao Deus que fez de um só sangue todos os homens para habitar a face da Terra?
Precisamos de vozes proféticas dispostas a clamar contra o falso deus do nacionalismo.