terça-feira, 22 de setembro de 2026

O DISCURSO DE CHE GUEVARA NA ONU (Victor Pérez Galdós Orti)

Vestindo um simples terno verde-oliva e falando com notável clareza, o Comandante Ernesto Guevara representou Cuba na 19ª sessão da Assembleia Geral da ONU, em 11 de dezembro de 1964.
El Che, com suas palavras vibrantes, lutava em defesa de Cuba e dos povos que sofreram os efeitos nocivos do colonialismo, do neocolonialismo e de outras formas de exploração.
Na abertura de seu discurso, Guevara declarou que a hora final do colonialismo havia chegado e que milhões de pessoas na África, Ásia e América Latina estavam se levantando para abraçar uma nova vida e reivindicar seu direito irrestrito à autodeterminação e ao desenvolvimento independente de suas nações.
Che afirmou ainda que Cuba havia comparecido à ONU para estabelecer sua posição sobre os pontos de discórdia mais importantes e o faria com toda a responsabilidade inerente ao uso dessa plataforma. Argumentou que a coexistência pacífica não poderia ser privilégio das nações poderosas se a paz mundial fosse verdadeiramente assegurada, portanto afirmava o direito à coexistência pacífica também entre os países do Terceiro Mundo que sofreram anos de agressão e exploração cruel. Ele declarou: 
─ A coexistência pacífica deve ser praticada entre todos os Estados, independentemente de seu tamanho, de suas relações históricas passadas e dos problemas que possam ter surgido entre alguns deles em qualquer momento.
Perante a Assembleia Geral das Nações Unidas, Che Guevara também denunciou as ações tomadas pelos Estados Unidos da América que estavam dificultando o desenvolvimento normal da coexistência pacífica em escala global e em regiões específicas.
Em seu discurso, ele também se referiu à situação em Porto Rico. Destacou o simbolismo da luta pela independência travada pelo patriota porto-riquenho Pedro Albizu Campos, a quem descreveu como um símbolo de uma América ainda não redimida, mas indomável.
E, recordando como manteve sua determinação mesmo durante os muitos anos de prisão nos Estados Unidos, Che Guevara expressou: 
─ Anos e anos de prisão, pressão insuportável na cadeia, tortura mental, solidão, isolamento total de seu povo e de sua família, a insolência do conquistador e seus lacaios na terra natal; nada quebrou sua vontade. A Delegação Cubana, em nome de seu povo, presta homenagem de admiração e gratidão a um patriota que dignifica nossa América.
Ele enfatizou que, apesar das manobras e esforços realizados pelos Estados Unidos para subjugar o povo de Porto Rico, a vontade dos porto-riquenhos de defender sua cultura e seu direito à independência se destacou.
Também no discurso que proferiu em 11 de dezembro de 1964, na sede das Nações Unidas, Che Guevara falou sobre a situação colonial sofrida por outros povos das Américas e abordou a dura realidade do continente africano.
Che também lembrou o que Fidel Castro, o líder da Revolução Cubana, havia declarado quatro anos antes na ONU. Em seu discurso nas Nações Unidas em 26 de setembro de 1960, Castro declarou que a filosofia da pilhagem deveria acabar e, com ela, a filosofia da guerra.
Refletindo sobre o estado do mundo, anos após a declaração de Fidel, Che disse que a filosofia da pilhagem não só persistia, como estava mais forte do que nunca. Chegou a destacar como elementos reacionários estavam usando o nome das Nações Unidas para impor seus interesses e até mesmo cometer crimes, como foi o caso do patriota africano Patrice Lumumba. A respeito disso comentou: 
─ Como podemos esquecer como a esperança de Patrice Lumumba nas Nações Unidas foi traída? Como podemos esquecer as lutas de poder e as manobras que se seguiram à ocupação daquele país pelas tropas das Nações Unidas, sob cujos auspícios os assassinos do grande patriota africano agiram impunemente?
O discurso de Che Guevara perante a Assembleia Geral das Nações Unidas foi um momento particularmente significativo na história da Revolução Cubana e destacou, mais uma vez, que Cuba não falava apenas em defesa de seus próprios interesses ou para denunciar as agressões perpetradas contra o país, mas essencialmente em representação e defesa dos legítimos interesses de muitos povos do mundo. 
Abordou também todos os graves problemas e perigos que poderiam afetar o mundo em geral, incluindo o comércio desigual, o desrespeito aos direitos dos países e suas fronteiras, bem como a condenação da corrida armamentista e o apelo ao desarmamento que contribuiria para a preservação da paz em escala universal.
Foi precisamente sobre esses temas que Che, com suas palavras vibrantes, declarou da tribuna das Nações Unidas: 
─ Ao unirmos a voz de todos os países do mundo que clamam pelo desarmamento geral e completo, pela destruição de todo o arsenal atômico, pela cessação absoluta da fabricação de novos dispositivos termonucleares e de testes atômicos de qualquer tipo, acreditamos ser necessário enfatizar que, além disso, a integridade territorial das nações também deve ser respeitada e o braço armado do imperialismo deve ser detido, não sendo menos perigoso por usar apenas armas convencionais.
Na parte final de seu discurso na ONU, Che relembrou questões essenciais levantadas na Segunda Declaração de Havana, aprovada em Assembleia Geral do povo cubano realizada em 4 de fevereiro de 1962. Entre os princípios relembrados por Che em relação àquela declaração histórica, estava o seguinte: 
─ Porque esta grande humanidade disse "basta!” e despertou. E sua marcha, como a de gigantes, não cessará até alcançar a verdadeira independência, pela qual já morreram mais de uma vez em vão.
Naquele mesmo dia, 11 de dezembro de 1964, exercendo seu direito de resposta às opiniões expressas por representantes de diferentes países, Che, entre outras coisas, referiu-se à responsabilidade que estava sendo atribuída a Cuba em relação à promoção da revolução em outros países da América Latina. Ele afirmou com particular significado: 
─ Sustentamos, repetidamente, que as revoluções não são exportadas. As revoluções nascem dentro do povo.

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

O BOLSONARISMO MATA! (Aldenor Ferreira)

Há expressões que não são metáforas. São diagnósticos. Dizer que o bolsonarismo mata não é força de linguagem. É constatação histórica, política e moral.
O bolsonarismo mata porque é violento. E aqui a palavra deve ser tomada em sua plenitude. Violento no gesto, na fala, na simbologia, na pedagogia cotidiana do ódio. É violento quando transforma adversários políticos em inimigos. É violento quando naturaliza a eliminação simbólica e física do outro como método de afirmação política.
Mas o bolsonarismo mata também de outras formas, menos imediatas e igualmente devastadoras.
Mata a cultura nacional. O bolsonarismo não gosta do cinema brasileiro, da música popular, da literatura, da produção artística que pensa o país. Despreza universidades, demoniza professores, trata artistas como parasitas. 
O bolsonarismo mata ao atacar políticas públicas de fomento cultural, ao sufocar instituições, ao promover o obscurantismo, mata a capacidade de um povo narrar a si mesmo. Um país que não pode contar sua própria história começa a morrer por dentro.
O bolsonarismo mata indígenas e quilombolas quando incentiva invasões em suas terras, quando relativiza crimes ambientais, quando desmonta estruturas de fiscalização e trata o modo de vida desses povos como obstáculo ao “progresso”. 
O bolsonarismo mata agricultores familiares ao priorizar modelos concentradores, ao desmontar políticas de apoio à produção de base camponesa, ao enfraquecer programas de abastecimento popular. Mata a floresta quando estimula a devastação em nome de uma visão predatória e atrasada de desenvolvimento.
O bolsonarismo mata mulheres ao sustentar discursos misóginos, ao apoiar projetos legislativos que restringem direitos, ao deslegitimar políticas de proteção. A violência simbólica abre caminho para a violência concreta. Mata quando a mulher é tratada como objeto ou ameaça, o resultado não é neutro: é estatístico, é estrutural, é mortal.
O bolsonarismo mata a democracia ao flertar reiteradamente com o golpe de Estado, ao desacreditar eleições, ao atacar tribunais, ao corroer a confiança nas instituições. Mata o Congresso quando rebaixa o debate público ao nível da ofensa permanente e da desinformação organizada. Mata a esfera pública ao substituir o argumento pela agressão.
O bolsonarismo mata a soberania nacional, quando se submete voluntariamente a interesses estrangeiros, quando entrega ativos estratégicos, quando transforma a política externa em gesto ideológico de alinhamento automático. 
O bolsonarismo mata a economia nacional ao desmontar instrumentos de planejamento, ao enfraquecer empresas públicas estratégicas, ao reduzir o Estado brasileiro à condição de balcão de negócios.
Por isso é preciso dizer com clareza: o bolsonarismo não é conservadorismo. Conservadorismo é tradição intelectual. O bolsonarismo é outra coisa. É neofascismo à brasileira, adaptado às nossas circunstâncias históricas, mas fiel ao seu núcleo autoritário, antiplural e destrutivo.
Há um conceito filosófico e sociológico contemporâneo que ajuda a compreender esse fenômeno: necropolítica, do camaronês Achille Mbembe. Trata-se da política que decide quem pode viver e quem pode morrer, literal ou simbolicamente. Quando a morte deixa de ser exceção trágica e passa a ser instrumento de governo, estamos diante de algo mais profundo do que divergência ideológica. Estamos diante de um projeto. E o projeto é a eliminação do diferente.
O bolsonarismo mata porque precisa da morte física, simbólica, institucional para se afirmar. Alimenta-se do conflito permanente, da tensão constante, da polarização radicalizada. Sua energia política nasce da destruição.
Não se trata, portanto, de uma disputa política comum entre direita e esquerda. Trata-se de uma disputa civilizatória. Entre política e barbárie. Entre democracia e autoritarismo. Entre vida e morte. O Brasil é maior que isso. O Brasil tem que ser mais que isso. 
E é exatamente por isso que precisamos enfrentar o bolsonarismo não apenas como adversário eleitoral, mas como fenômeno histórico que ameaça corroer os fundamentos da vida coletiva. Porque, no fim das contas, não é exagero dizer: o bolsonarismo mata. E o que mata não pode governar.

sábado, 25 de julho de 2026

2026 ─ CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE FIDEL CASTRO

    "Nossa grandeza às vezes não é vista, porque é invisível para alguns; não é comercializada, porque não tem valor comercial. Não se esconde, porque é digna e pura. Mas, sim, ela pode ser sentida: nos povos libertados, nos doentes tratados e na cura aprimorada, na alfabetização e na instrução do povo, no atleta formado, no artista exposto. E nossos inimigos também sentem isso. Eles sentem tanto que todos os dias fazem planos para acabar com essa grandeza. É por isso que eles nos odeiam, pela ideia que representamos, pelo exemplo que estabelecemos. Mostramos que, com vontade e coragem, outro mundo, sim, é possível”.

MOVIMIENTO 26 DE JULIO

Neste ano que celebramos o centenário do nascimento de Fidel Castro é importante relembrar o que representa o Movimento 26 de Julho na história da revolução cubana.
A data, do ano de 1953, refere-se ao primeiro levante contra o regime autoritário do ditador Fulgêncio Batista, que no ano anterior havia tomado o poder com um golpe militar, promovendo a ruptura democrática na ilha caribenha.
Fidel era então um jovem advogado, filho de fazendeiro, que defendia basicamente os valores da democracia liberal. 
Por isso a indignação que o levou a tomar a drástica atitude de liderar um ataque militar ao Quartel de Moncada, na cidade de Santiago de Cuba, no dia 26 de julho de 1953.
A rebelião fracassou, muitos rebeldes foram mortos e o líder do grupo Fidel Castro foi preso, junto com alguns companheiros que se salvaram do embate contra as forças do governo.
Condenado a 15 anos de prisão, Fidel declarou no seu julgamento a célebre frase: "a História me absolverá".
Libertados após dois anos por uma anistia conquistada em uma campanha popular, Fidel e seus companheiros fundaram o Movimiento 26 de Julio, no dia 12 de junho de 1955, com o objetivo de restaurar a democracia em Cuba, nem que fosse na bala. 
Em seguida os rebeldes foram obrigados a deixar o país e exilaram-se no México, onde iniciaram na clandestinidade os treinamentos militares para um novo levante contra o governo Batista. 
Foi neste período que Fidel conheceu Che Guevara na Cidade do México, um aventureiro recém formado em Medicina.
Che por acaso havia estado na Cidade da Guatemala em 1954, quando os Estados Unidos derrubaram o governo de Jacobo Árbens com um ataque militar, impondo aos guatemaltecos uma ditadura submissa aos interesses de Washington.