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sexta-feira, 16 de maio de 2025

A NOITE ANTERIOR

Em 18 de fevereiro de 1964 os Beatles e o ainda chamado Cassius Clay tiveram um encontro promocional em Miami. O quarteto inglês fazia sua estreia nos Estados Unidos, enquanto o jovem pugilista estava prestes a se tornar campeão mundial ─ e logo depois iria mudar o seu nome para Muhammad Ali. A sequência fotográfica tem a trilha sonora de Pacchioni & Vicani e na foto final Lennon (com Yoko Ono) e Ali se reencontram em 1977, no jantar cerimonial da posse do presidente Jimmy Carter.

              

quarta-feira, 23 de abril de 2025

UM CAVALHEIRO POR INSTINTO

TRECHOS DE UM DIÁRIO - O Cacique Seattle: Um cavalheiro por instinto 
- 10º artigo da série Primeiras Reminiscências de Henry Smith
Seattle Sunday Star, 29 de outubro de 1887.

O velho cacique Seattle era o maior índio que eu jamais havia visto. E o que tinha aparência mais nobre. Em seus mocassins, ele media mais de 1,80m, ombros largos, tórax amplo e traços finos. Seus olhos eram grandes, inteligentes, expressivos e amigáveis quando em repouso, espelhando fielmente os variados estados de espírito da grande alma que olhava através deles.
Normalmente era solene, calado e digno, porém nas grandes ocasiões movia-se na multidão como um Titã entre Liliputianos e o que ele dissesse era lei. Quando se levantava para falar, em reuniões, ou para oferecer conselho, todos os olhos se voltavam para ele. Então frases profundas, sonoras e eloquentes fluíam de seus lábios, assim como trovões de cataratas fluindo continuamente de fontes inexauríveis.
Suas diretrizes soavam tão nobres como teriam soado aquelas do mais cultivado chefe militar que estivesse no comando das forças de todo o continente. Nem sua eloquência, nem sua dignidade ou sua graça haviam sido adquiridas. Elas eram tão próprias da sua personalidade quanto as folhas e as flores o são em um pessegueiro em flor.
Sua influência era maravilhosa. Ele poderia ter sido um imperador, mas todos os seus instintos eram democráticos e ele comandava os seus leais cidadãos com suavidade e com paternal benignidade. Sempre era alvo de especial atenção pelo homem branco, principalmente quando sentado à sua mesa. Era nessas ocasiões que demonstrava, mais do que em qualquer outro lugar, o cavalheirismo que lhe era genuíno.
Assim que o Governador Stevens chegou a Seattle e disse aos nativos que tinha sido indicado Comissário para assuntos indígenas do território de Washington, estes lhe prepararam uma recepção em frente dos escritórios do Dr. Maynard, na margem próxima da Main Street.
A baía se enxameava de canoas enquanto a margem era tomada por uma morena e movimentada massa humana. Quando o timbre de trombeta da voz do velho cacique espalhou-se sobre a imensa multidão como o rufar de um tambor, formou-se um silêncio tão instantâneo e perfeito como aquele que segue o "crack" do trovão em um céu limpo.
Sendo então apresentado à multidão nativa pelo Dr. Maynard, em um tom conversacional, direto e objetivo, o Governador deu imediatamente início a uma explanação sobre sua missão, que é conhecida demais para que requeira recapitulação.
Quando ele se sentou, o cacique Seattle levantou-se com a dignidade de um senador que carrega em seus ombros a responsabilidade sobre uma grande nação. Colocando uma mão sobre a cabeça do Governador e lentamente apontando para o céu com o dedo indicador da outra, em tom solene e impressionante, começou seu memorável pronunciamento.

sexta-feira, 22 de março de 2024

AMADEU DE QUEIROZ – Textos selecionados

CAPÍTULO 3

Primeira parte do livro 
"Pouso Alegre: a origem da cidade 
e a história da sua imprensa" (1931)


COMO ESCREVO

Vou dar uma ideia. Logo que imagino um romance, crio os seus personagens e, antes do mais, faço uma relação de todos eles, com os nomes e as características de cada qual. Assim os personagens começam a existir desde logo. Vão adquirindo personalidade e não me deixam mais um instante sequer.
Como na vida, os personagens de um romance devem existir antes da ação. Devem ser uns tipos comuníssimos, mesmo porque não é possível inventar as figuras de uma obra de ficção. Devem existir, dissimulados em toda gente; devem ter os olhos de um, o talento e o nariz de outro, a astúcia e a feiúra de muitos, a maldade de quase todos. O que sai de minha pena existe por aí, senão na realidade, com certeza na imaginação de muita gente.
Quer saber de uma coisa? Quando escrevo, procuro imitar o incrustador que, aos pedacinhos, faz o admirável conjunto de sua obra. Aplico o mesmo processo aos homens, à paisagem, às paixões, a tudo que possa gerar emoções. 
A emoção não se transmite. O escritor não deve apresentar a sua obra integralmente realizada, nem dar um sentido definitivo às suas palavras, mas incitar, com a sua arte, a arte dissimulada dos leitores, realizada só por eles, conforme a cultura e a sensibilidade de cada um. Sejam o que forem, os escritores, talentosos ou geniais, só conseguirão, com a sua arte, despertar emoções dormentes.
O livro é fonte de emoções sempre novas. Passem as gerações e os leitores continuarão criando os seus mundos, inspirados no mesmo livro, no livro que não morre nem envelhece. Mas também há os leitores pretensiosos. Esses querem a toda força encontrar em nossos escritos intenções que jamais tivemos.
Acontece, às vezes, que me vem à lembrança uma palavra qualquer, que me parece expressiva ou interessante. Sinto um desejo enorme de utilizá-la. Então componho uma frase em que ela fica em bastante destaque. Feita a frase, corrijo-a, deixo-a bem apurada e aplico-a a um sentimento, a uma paisagem, a um tipo. Depois, acomodo-a a uma história.
O leitor não conhece essas ginásticas de trampolineiro. Supõe a criação enorme, descendo para a exiguidade da palavra. Portanto, já então, eu saí do meu rumo para cair no do leitor. E, assim, quanto mais incompreensível me apresento, mais engenhoso ele se torna para interpretar-me. E chega ao ponto de descobrir intenções que não tive, símbolos de que não me servi, argúcias filosóficas de que nunca dispus.

Fonte: PEIXOTO, José Benedito Silveira. Falam os escritores. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1971-1976.



quarta-feira, 5 de maio de 2021

GETÚLIO VARGAS SEGUNDO LEONEL BRIZOLA

Em abril de 1999, Leonel Brizola fez uma visita a Minas Gerais, em solidariedade ao então governador Itamar Franco, no episódio da crise da moratória da dívida do Estado com o governo federal. Entrevistado pela Rede Minas de Televisão, o experiente político gaúcho traçou um breve perfil da personalidade do ex-presidente Getúlio Vargas.

– Como o Sr. definiria para o público mineiro a figura do ex-presidente Getúlio Vargas?
BRIZOLA – Tenho uma honra muito grande em me dirigir ao povo mineiro, porque nossos laços com Minas são muitos. O maior rio-grandense de todos, que nós consideramos - claro, era gaúcho porque nasceu lá nos pampas, mas de alma ele era mineiro - foi Getúlio Vargas. Getúlio era, de sentimento, de espírito, de maneira de ser, um mineiro. Tanto que Minas era o Estado que ele mais visitava, eram os políticos com quem ele mais convivia. A última visita da vida dele, talvez já pensando em morrer, foi a Minas.
– Como o Sr. justifica toda a controvérsia em torno da personalidade do ex-presidente Vargas?
BRIZOLA – Nosso país é muito grande, com uma população imensa, e é natural que não tenhamos um pensamento só, a respeito de qualquer assunto. Então naquela época o país se dividiu em relação a Getúlio, mas por fim ficou comprovado que, no curso do período em que ele esteve presente na vida política brasileira, ele sempre contou com o apoio da grande maioria, uma maioria massiva da população e da opinião dos nossos compatriotas. Mas havia uma oposição, que se articulava muito em função de interesses internacionais, porque o governo Vargas tinha um sentido nacionalista. Ele procurou criar um mercado interno, desenvolver o empresariado brasileiro e a indústria nacional. Trabalhou muito nessa direção e isso contrariava muitos interesses e eram esses interesses que subsidiavam os seus adversários. Cada vez mais a imprensa brasileira foi sofrendo influência desses interesses, e então foi criado todo um quadro de apreciações contrárias a ele.
– O Sr. poderia nos traçar um perfil humano do estadista Getúlio Vargas?
BRIZOLA – Vargas formou sua personalidade no ambiente republicano do Rio Grande do Sul. Estudou em São Paulo e depois foi secretário de Júlio de Castilhos. De uma certa forma, ele foi um discípulo tanto de Borges de Medeiros como de Júlio de Castilhos. Era um homem muito especial, que tinha uma fisionomia que falava, tinha expressão fisionômica. Ele expressava oitenta por cento do seu pensamento caçoando, brincando, contando histórias. Tinha muitíssimo humor, inclusive em relação aos seus amigos, a quem ele agradava contando aquelas histórias. Era uma pessoa que não tinha reações violentas de nenhuma forma. Por isso eu digo que tinha um temperamento mineiro, era tranqüilo, um homem suave. Tinha uma vida interior muito profunda, era um homem culto e muito lido. Teve seu tempo de deputado estadual, deputado federal, foi ministro da Fazenda e foi o coordenador da Revolução de 1930, de uma maneira também suave, deixando que os acontecimentos fossem se produzindo. Promoveu a modernização do Estado brasileiro, organizou a justiça eleitoral, a legislação trabalhista, enfim, no meu entender, Getúlio Vargas foi a maior personalidade da história política brasileira.
– Como o Sr. explica a atuação de Vargas em fatos polêmicos ocorridos durante o seu governo, como a prisão de Monteiro Lobato ou a extradição de Olga Prestes para a Alemanha nazista, por exemplo?
BRIZOLA – Eu era muito jovem naquela época e ainda não participava da vida política brasileira, mas, francamente, embora tenham ocorridos muitos fatos e episódios, de certa forma, desabonadores, no curso da presença dele no governo, eu, sinceramente, não creio que essas coisas tenham se passado por determinação dele. Posso afirmar que o presidente Vargas era um homem profundamente bom.
– Qual é a análise que o Sr. faz do golpe de 1937, que transformou Getúlio Vargas em ditador?
BRIZOLA – Em primeiro lugar, o golpe não foi só do presidente Vargas. Eu acho que aquele golpe de 37 vinha com Getúlio, sem Getúlio ou contra Getúlio. Eu atribuo às Forças Armadas aquela decisão. E Vargas, que era um político suave, tratou de ficar ali em cima daquele cavalo: foi puxando uma rédea, pisando no estribo, foi segurando, se firmou ali em cima e puxou. Então houve todo aquele poder do golpe, que aconteceu em função da guerra na Europa, que tinha os "integralistas", de direita, fortes, ameaçando e até atacando o Palácio Guanabara. Então Getúlio montou naquele cavalo e aproveitou para conceder direitos ao povo brasileiro. Por isso a classe dirigente, a elite privilegiada do Brasil e os grandes interesses internacionais ficaram contra Getúlio, porque ele usou aquela força em favor dos pequenos.