sábado, 15 de junho de 2024

UM SOLDADO DA DEMOCRACIA

O nome do Marechal do Exército Henrique Teixeira Lott (1894/1984) é mais conhecido na História do Brasil pelo episódio da tentativa de golpe militar contra a posse do Presidente da República Juscelino Kubistchek, em novembro de 1955.
Mas o Marechal Lott, derrotado por Jânio Quadros nas eleições presidenciais de 1960, também teve uma importante participação na chamada Campanha da Legalidade de agosto de 1961, quando a cúpula das Forças Armadas anunciou que não iria permitir a posse do vice-presidente João Goulart, depois da renúncia de Jânio Quadros.
Já na reserva, isolado e sem poder efetivo, Lott publicou um manifesto pregando a necessidade de se preservar a ordem constitucional em meio à crise política. O texto foi lido nas emissoras de rádio do Rio Grande do Sul e reproduzido na imprensa nacional, mas os jornais que publicaram o manifesto tiveram suas edições apreendidas.
Acusado de subversão pelo Ministério da Guerra, Lott foi preso na fortaleza de Laje no Rio de Janeiro, mas seu manifesto foi lido na tribuna da Câmara dos Deputados pelos nobres parlamentares Bocayuva Cunha e Eloy Dutra:
Aos meus camaradas das Forças Armadas e ao povo brasileiro.
Tomei conhecimento, nesta data, da decisão do Senhor Ministro da Guerra Marechal Odílio Denis, manifestada ao representante do governo do Rio Grande do Sul, deputado Rui Ramos, no Palácio do Planalto, em Brasília, de não permitir que o atual Presidente da República, Sr. João Goulart, entre no exercício de suas funções, e ainda, de detê-lo no momento em que pise o território nacional.
Mediante ligação telefônica, tentei demover aquele eminente colega da prática de semelhante violência, sem obter resultado. Embora afastado das atividades militares, mantenho um compromisso de honra com a minha classe, com a minha pátria e as suas instituições democráticas e constitucionais. E, por isso, sinto-me no indeclinável dever de manifestar o meu repúdio à solução anormal e arbitrária que se pretende impor à Nação. 
Dentro dessa orientação, conclamo todas as forças vivas do país, as forças da produção e do pensamento, dos estudantes e intelectuais, dos operários e o povo em geral, para tomar posição decisiva e enérgica no respeito à Constituição e preservação integral do regime democrático brasileiro, certo ainda de que os meus camaradas das Forças Armadas saberão portar-se à altura das tradições legalistas que marcam sua história no destino da Pátria”.