domingo, 8 de março de 2026

                  ─ MENSAGENS BÍBLICAS Edição Standard/T

O BOLSONARISMO MATA! (Aldenor Ferreira)

Há expressões que não são metáforas. São diagnósticos. Dizer que o bolsonarismo mata não é força de linguagem. É constatação histórica, política e moral.
O bolsonarismo mata porque é violento. E aqui a palavra deve ser tomada em sua plenitude. Violento no gesto, na fala, na simbologia, na pedagogia cotidiana do ódio. É violento quando transforma adversários políticos em inimigos. É violento quando naturaliza a eliminação simbólica e física do outro como método de afirmação política.
Mas o bolsonarismo mata também de outras formas, menos imediatas e igualmente devastadoras.
Mata a cultura nacional. O bolsonarismo não gosta do cinema brasileiro, da música popular, da literatura, da produção artística que pensa o país. Despreza universidades, demoniza professores, trata artistas como parasitas. 
O bolsonarismo mata ao atacar políticas públicas de fomento cultural, ao sufocar instituições, ao promover o obscurantismo, mata a capacidade de um povo narrar a si mesmo. Um país que não pode contar sua própria história começa a morrer por dentro.
O bolsonarismo mata indígenas e quilombolas quando incentiva invasões em suas terras, quando relativiza crimes ambientais, quando desmonta estruturas de fiscalização e trata o modo de vida desses povos como obstáculo ao “progresso”. 
O bolsonarismo mata agricultores familiares ao priorizar modelos concentradores, ao desmontar políticas de apoio à produção de base camponesa, ao enfraquecer programas de abastecimento popular. Mata a floresta quando estimula a devastação em nome de uma visão predatória e atrasada de desenvolvimento.
O bolsonarismo mata mulheres ao sustentar discursos misóginos, ao apoiar projetos legislativos que restringem direitos, ao deslegitimar políticas de proteção. A violência simbólica abre caminho para a violência concreta. Mata quando a mulher é tratada como objeto ou ameaça, o resultado não é neutro: é estatístico, é estrutural, é mortal.
O bolsonarismo mata a democracia ao flertar reiteradamente com o golpe de Estado, ao desacreditar eleições, ao atacar tribunais, ao corroer a confiança nas instituições. Mata o Congresso quando rebaixa o debate público ao nível da ofensa permanente e da desinformação organizada. Mata a esfera pública ao substituir o argumento pela agressão.
O bolsonarismo mata a soberania nacional, quando se submete voluntariamente a interesses estrangeiros, quando entrega ativos estratégicos, quando transforma a política externa em gesto ideológico de alinhamento automático. 
O bolsonarismo mata a economia nacional ao desmontar instrumentos de planejamento, ao enfraquecer empresas públicas estratégicas, ao reduzir o Estado brasileiro à condição de balcão de negócios.
Por isso é preciso dizer com clareza: o bolsonarismo não é conservadorismo. Conservadorismo é tradição intelectual. O bolsonarismo é outra coisa. É neofascismo à brasileira, adaptado às nossas circunstâncias históricas, mas fiel ao seu núcleo autoritário, antiplural e destrutivo.
Há um conceito filosófico e sociológico contemporâneo que ajuda a compreender esse fenômeno: necropolítica, do camaronês Achille Mbembe. Trata-se da política que decide quem pode viver e quem pode morrer, literal ou simbolicamente. Quando a morte deixa de ser exceção trágica e passa a ser instrumento de governo, estamos diante de algo mais profundo do que divergência ideológica. Estamos diante de um projeto. E o projeto é a eliminação do diferente.
O bolsonarismo mata porque precisa da morte física, simbólica, institucional para se afirmar. Alimenta-se do conflito permanente, da tensão constante, da polarização radicalizada. Sua energia política nasce da destruição.
Não se trata, portanto, de uma disputa política comum entre direita e esquerda. Trata-se de uma disputa civilizatória. Entre política e barbárie. Entre democracia e autoritarismo. Entre vida e morte. O Brasil é maior que isso. O Brasil tem que ser mais que isso. 
E é exatamente por isso que precisamos enfrentar o bolsonarismo não apenas como adversário eleitoral, mas como fenômeno histórico que ameaça corroer os fundamentos da vida coletiva. Porque, no fim das contas, não é exagero dizer: o bolsonarismo mata. E o que mata não pode governar.