quinta-feira, 6 de março de 2025

UM EXEMPLO DE CORAGEM


Uma semana após ter sido libertada, em 5 de setembro de 1979, Inês Etienne Romeu prestou um depoimento histórico no Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, no qual revelou as práticas recorrentes de tortura e assassinato de militantes políticos utilizadas por agentes do governo militar como método de investigação. 
Até então a atividade terrorista do Estado brasileiro era um assunto proibido e só veio à tona aos poucos, a partir da redemocratização no começo da década de 1980. Em boa parte, o processo inicial de revelação dos crimes cometidos pelo regime militar ganhou força graças à coragem de Inês, que, ainda em plena ditadura do general Figueiredo, acusava publicamente o regime militar de cometer todas aquelas atrocidades. 
A localização da casa de tortura em Petrópolis ─ a chamada "casa da morte" ─ só foi descoberta em 1981, por esforço de investigação da própria Inês e do jornalista Antônio Henrique Lago, que procuraram exaustivamente em catálogos telefônicos um número que ela tinha guardado na memória.
A única pista que Inês tinha, além daquele número, era de que a casa para onde ela foi levada ─ pelo movimento do veículo, já que ela foi encapuzada  era localizada em um lugar serrano, não muito longe do Rio de Janeiro. Catálogos de várias cidades tiveram que ser pesquisados, até que o número foi encontrado: uma casa em Petrópolis, cujo proprietário era um tal Mário Lodders.
Durante este período Inês deu uma entrevista para o jornal O Pasquim e também fez denúncias em outros órgãos de imprensa, até que agentes clandestinos das Forças Armadas começaram a explodir bombas nas bancas de jornais. Em 27 de agosto de 1980 enviaram uma carta-bomba à sede do Conselho Federal da OAB no Rio de Janeiro, matando a secretária Lyda Monteiro.
A ação terrorista de grupos militares culminaria no episódio do Riocentro em 1981. Logo em seguida a ditadura entrou em colapso, especialmente pelos resultados das eleições gerais de 1982. A cristalização da consciência coletiva a respeito dos crimes cometidos pelo regime militar finalmente ocorreu com o livro-documento "Brasil: Nunca Mais", publicado em 1985 pela arquidiocese de São Paulo e por outras entidades religiosas.

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