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quinta-feira, 28 de março de 2024
segunda-feira, 25 de março de 2024
sexta-feira, 22 de março de 2024
AMADEU DE QUEIROZ – Textos selecionados
CAPÍTULO 3
Primeira parte do livro
"Pouso Alegre: a origem da cidade
e a história da sua imprensa" (1931)
COMO ESCREVO
Vou dar uma ideia. Logo que imagino um romance, crio os seus personagens e, antes do mais, faço uma relação de todos eles, com os nomes e as características de cada qual. Assim os personagens começam a existir desde logo. Vão adquirindo personalidade e não me deixam mais um instante sequer.
Como na vida, os personagens de um romance devem existir antes da ação. Devem ser uns tipos comuníssimos, mesmo porque não é possível inventar as figuras de uma obra de ficção. Devem existir, dissimulados em toda gente; devem ter os olhos de um, o talento e o nariz de outro, a astúcia e a feiúra de muitos, a maldade de quase todos. O que sai de minha pena existe por aí, senão na realidade, com certeza na imaginação de muita gente.
Quer saber de uma coisa? Quando escrevo, procuro imitar o incrustador que, aos pedacinhos, faz o admirável conjunto de sua obra. Aplico o mesmo processo aos homens, à paisagem, às paixões, a tudo que possa gerar emoções.
A emoção não se transmite. O escritor não deve apresentar a sua obra integralmente realizada, nem dar um sentido definitivo às suas palavras, mas incitar, com a sua arte, a arte dissimulada dos leitores, realizada só por eles, conforme a cultura e a sensibilidade de cada um. Sejam o que forem, os escritores, talentosos ou geniais, só conseguirão, com a sua arte, despertar emoções dormentes.
O livro é fonte de emoções sempre novas. Passem as gerações e os leitores continuarão criando os seus mundos, inspirados no mesmo livro, no livro que não morre nem envelhece. Mas também há os leitores pretensiosos. Esses querem a toda força encontrar em nossos escritos intenções que jamais tivemos.
Acontece, às vezes, que me vem à lembrança uma palavra qualquer, que me parece expressiva ou interessante. Sinto um desejo enorme de utilizá-la. Então componho uma frase em que ela fica em bastante destaque. Feita a frase, corrijo-a, deixo-a bem apurada e aplico-a a um sentimento, a uma paisagem, a um tipo. Depois, acomodo-a a uma história.
O leitor não conhece essas ginásticas de trampolineiro. Supõe a criação enorme, descendo para a exiguidade da palavra. Portanto, já então, eu saí do meu rumo para cair no do leitor. E, assim, quanto mais incompreensível me apresento, mais engenhoso ele se torna para interpretar-me. E chega ao ponto de descobrir intenções que não tive, símbolos de que não me servi, argúcias filosóficas de que nunca dispus.
Fonte: PEIXOTO, José Benedito Silveira. Falam os escritores. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1971-1976.
quinta-feira, 14 de março de 2024
segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024
terça-feira, 27 de abril de 2021
1873/2023 - Sesquicentenário de Ana Cândida de Carvalho Simões
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019
POSFÁCIO DA EDIÇÃO DIGITAL
“O escritor de hoje é uma espécie de bobo da corte, encarregado de dizer coisas heterodoxas, politicamente incorretas. Mas não se muda nada. Nós somos a cereja que está aí para enfeitar o bolo e, vá lá, tentamos enfeitá-lo da melhor maneira possível” (José Saramago, 1999).
A relevância de um trabalho acadêmico pode estar na permanente atualidade do seu conteúdo, em desafio às inevitáveis mudanças de conceitos que ocorrem com o passar dos anos. Este livro sobre o romance neo-realista em Portugal, publicado pela professora Déa Márcia Simões em 1975, é um desses trabalhos que perduram no tempo, não apenas pela perenidade da sua substância, mas também pela riqueza teórica na abordagem do tema.
Certamente muita coisa aconteceu nas últimas cinco décadas, depois do lançamento deste livro. A arte literária talvez tenha dado mais um ou dois passos à frente na evolução da criação das suas formas artísticas. Partindo da ideia exposta no início do livro - de que “em Portugal, a geração neo-realista pretendeu preencher o vazio que a morte de Eça de Queiroz deixou no romance português. Se conseguiu ou não, só o tempo há de dizer” - qual perspectiva nos é oferecida hoje, em pleno século XXI?
Saramago surgiu para o mundo da literatura na década de 1980, depois, portanto, da conclusão deste trabalho. Teria ele finalmente preenchido este vazio deixado por Eça? Graças à amplitude da sua pesquisa, a autora nos apresenta esta reivindicação ou premonição estética, suscitada pelo estudo da influência do neo-realismo na literatura de Portugal.
Há dois momentos bem marcantes na análise deste estilo de época: o primeiro, mais radical, e o segundo, já liberto de convenções, tal como posteriormente evoluiria a obra de Saramago, brotada no início da fonte pura do neo-realismo e depois transmutada para outras vertentes dos modernismos literários.
Os reflexos práticos da inserção do romance neo-realista na vida da sociedade é uma questão que continua polêmica. Um dos equívocos do chamado Socialismo Real do século XX foi considerar o Estado como uma entidade superior, maior inclusive, na sua concepção filosófica e axiológica, que a própria Vida.
Tal comparação também pode ser aplicada à Arte, ou seja, a Vida é muito maior que a Literatura. Assim como as políticas de Estado não são suficientes para dar conta de toda a realidade social existente, a Literatura, por si só, não é capaz de revolucionar o mundo. Só o próprio mundo, ou a própria Vida, pode se autotransformar.
A finalidade da Arte, porém, não deve ficar restrita apenas a “produzir-nos esta emoção tão particular, tão misteriosa e talvez tão complexa: a emoção estética" (José Régio, Manifesto de 1928, Revista Presença). Representando um novo estilo nas letras portuguesas, os escritores neo-realistas não pretenderam entrar para história da Literatura como mera obra de arte, mas quiseram ser, antes de tudo, um documentário humano vivo.
Certamente muita coisa aconteceu nas últimas cinco décadas, depois do lançamento deste livro. A arte literária talvez tenha dado mais um ou dois passos à frente na evolução da criação das suas formas artísticas. Partindo da ideia exposta no início do livro - de que “em Portugal, a geração neo-realista pretendeu preencher o vazio que a morte de Eça de Queiroz deixou no romance português. Se conseguiu ou não, só o tempo há de dizer” - qual perspectiva nos é oferecida hoje, em pleno século XXI?
Saramago surgiu para o mundo da literatura na década de 1980, depois, portanto, da conclusão deste trabalho. Teria ele finalmente preenchido este vazio deixado por Eça? Graças à amplitude da sua pesquisa, a autora nos apresenta esta reivindicação ou premonição estética, suscitada pelo estudo da influência do neo-realismo na literatura de Portugal.
Há dois momentos bem marcantes na análise deste estilo de época: o primeiro, mais radical, e o segundo, já liberto de convenções, tal como posteriormente evoluiria a obra de Saramago, brotada no início da fonte pura do neo-realismo e depois transmutada para outras vertentes dos modernismos literários.
Os reflexos práticos da inserção do romance neo-realista na vida da sociedade é uma questão que continua polêmica. Um dos equívocos do chamado Socialismo Real do século XX foi considerar o Estado como uma entidade superior, maior inclusive, na sua concepção filosófica e axiológica, que a própria Vida.
Tal comparação também pode ser aplicada à Arte, ou seja, a Vida é muito maior que a Literatura. Assim como as políticas de Estado não são suficientes para dar conta de toda a realidade social existente, a Literatura, por si só, não é capaz de revolucionar o mundo. Só o próprio mundo, ou a própria Vida, pode se autotransformar.
A finalidade da Arte, porém, não deve ficar restrita apenas a “produzir-nos esta emoção tão particular, tão misteriosa e talvez tão complexa: a emoção estética" (José Régio, Manifesto de 1928, Revista Presença). Representando um novo estilo nas letras portuguesas, os escritores neo-realistas não pretenderam entrar para história da Literatura como mera obra de arte, mas quiseram ser, antes de tudo, um documentário humano vivo.
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