quarta-feira, 23 de abril de 2025

UM CAVALHEIRO POR INSTINTO

TRECHOS DE UM DIÁRIO - O Cacique Seattle: Um cavalheiro por instinto 
- 10º artigo da série Primeiras Reminiscências de Henry Smith
Seattle Sunday Star, 29 de outubro de 1887.

O velho cacique Seattle era o maior índio que eu jamais havia visto. E o que tinha aparência mais nobre. Em seus mocassins, ele media mais de 1,80m, ombros largos, tórax amplo e traços finos. Seus olhos eram grandes, inteligentes, expressivos e amigáveis quando em repouso, espelhando fielmente os variados estados de espírito da grande alma que olhava através deles.
Normalmente era solene, calado e digno, porém nas grandes ocasiões movia-se na multidão como um Titã entre Liliputianos e o que ele dissesse era lei. Quando se levantava para falar, em reuniões, ou para oferecer conselho, todos os olhos se voltavam para ele. Então frases profundas, sonoras e eloquentes fluíam de seus lábios, assim como trovões de cataratas fluindo continuamente de fontes inexauríveis.
Suas diretrizes soavam tão nobres como teriam soado aquelas do mais cultivado chefe militar que estivesse no comando das forças de todo o continente. Nem sua eloquência, nem sua dignidade ou sua graça haviam sido adquiridas. Elas eram tão próprias da sua personalidade quanto as folhas e as flores o são em um pessegueiro em flor.
Sua influência era maravilhosa. Ele poderia ter sido um imperador, mas todos os seus instintos eram democráticos e ele comandava os seus leais cidadãos com suavidade e com paternal benignidade. Sempre era alvo de especial atenção pelo homem branco, principalmente quando sentado à sua mesa. Era nessas ocasiões que demonstrava, mais do que em qualquer outro lugar, o cavalheirismo que lhe era genuíno.
Assim que o Governador Stevens chegou a Seattle e disse aos nativos que tinha sido indicado Comissário para assuntos indígenas do território de Washington, estes lhe prepararam uma recepção em frente dos escritórios do Dr. Maynard, na margem próxima da Main Street.
A baía se enxameava de canoas enquanto a margem era tomada por uma morena e movimentada massa humana. Quando o timbre de trombeta da voz do velho cacique espalhou-se sobre a imensa multidão como o rufar de um tambor, formou-se um silêncio tão instantâneo e perfeito como aquele que segue o "crack" do trovão em um céu limpo.
Sendo então apresentado à multidão nativa pelo Dr. Maynard, em um tom conversacional, direto e objetivo, o Governador deu imediatamente início a uma explanação sobre sua missão, que é conhecida demais para que requeira recapitulação.
Quando ele se sentou, o cacique Seattle levantou-se com a dignidade de um senador que carrega em seus ombros a responsabilidade sobre uma grande nação. Colocando uma mão sobre a cabeça do Governador e lentamente apontando para o céu com o dedo indicador da outra, em tom solene e impressionante, começou seu memorável pronunciamento.

domingo, 6 de abril de 2025

JOÃO (Amadeu de Queiroz)

            Edição da Livraria do Globo, Porto Alegre, 1945.

 Este livro, cujo estilo procura aproximar-se do singelo e natural da gente da roça, foi escrito com o temerário propósito de se fazer um romance em que nada acontece de anormal.

Representando cenas e almas vulgares, pretende mostrar a ignorância, a simplicidade, a timidez e a lentidão do caipira roceiro. Mas a narrativa, ressentindo-se da vulgaridade do assunto, criou o problema da monotonia, que o autor tentou resolver por meio de casos folclóricos e paisagens naturais, salvo as destinadas ao esclarecimento da psicologia de certos personagens.

Evitando prejudicar a naturalidade da narrativa, o autor registrou, intencionalmente, muitas das nossas expressões dialetais, vários termos portugueses que ficaram dos primitivos colonizadores e alguns arcaísmos da língua em pleno uso entre a gente rústica.

CAPÍTULO 1

Sesquicentenário de AMADEU DE QUEIROZ

quinta-feira, 6 de março de 2025

UM EXEMPLO DE CORAGEM


Uma semana após ter sido libertada, em 5 de setembro de 1979, Inês Etienne Romeu prestou um depoimento histórico no Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, no qual revelou as práticas recorrentes de tortura e assassinato de militantes políticos utilizadas por agentes do governo militar como método de investigação. 
Até então a atividade terrorista do Estado brasileiro era um assunto proibido e só veio à tona aos poucos, a partir da redemocratização no começo da década de 1980. Em boa parte, o processo inicial de revelação dos crimes cometidos pelo regime militar ganhou força graças à coragem de Inês, que, ainda em plena ditadura do general Figueiredo, acusava publicamente o regime militar de cometer todas aquelas atrocidades. 
A localização da casa de tortura em Petrópolis ─ a chamada "casa da morte" ─ só foi descoberta em 1981, por esforço de investigação da própria Inês e do jornalista Antônio Henrique Lago, que procuraram exaustivamente em catálogos telefônicos um número que ela tinha guardado na memória.
A única pista que Inês tinha, além daquele número, era de que a casa para onde ela foi levada ─ pelo movimento do veículo, já que ela foi encapuzada  era localizada em um lugar serrano, não muito longe do Rio de Janeiro. Catálogos de várias cidades tiveram que ser pesquisados, até que o número foi encontrado: uma casa em Petrópolis, cujo proprietário era um tal Mário Lodders.
Durante este período Inês deu uma entrevista para o jornal O Pasquim e também fez denúncias em outros órgãos de imprensa, até que agentes clandestinos das Forças Armadas começaram a explodir bombas nas bancas de jornais. Em 27 de agosto de 1980 enviaram uma carta-bomba à sede do Conselho Federal da OAB no Rio de Janeiro, matando a secretária Lyda Monteiro.
A ação terrorista de grupos militares culminaria no episódio do Riocentro em 1981. Logo em seguida a ditadura entrou em colapso, especialmente pelos resultados das eleições gerais de 1982. A cristalização da consciência coletiva a respeito dos crimes cometidos pelo regime militar finalmente ocorreu com o livro-documento "Brasil: Nunca Mais", publicado em 1985 pela arquidiocese de São Paulo e por outras entidades religiosas.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

GRANDE SERTÃO: A VIAGEM (João Correia Filho)

Algumas viagens entram para a história, outras entram também para a literatura. Foi o que aconteceu com o escritor João Guimarães Rosa, quando, há 70 anos, em maio de 1952, ele se lançou numa empreitada pelo sertão mineiro que marcaria sua vida e sua obra.
Acompanhado de oito vaqueiros e levando 300 cabeças de gado, percorreu em dez dias os 240 quilômetros que separam Três Marias e Araçaí, na região central de Minas Gerais, sua terra natal. Trazia amarrada ao pescoço uma caderneta, onde anotava tudo que via e ouvia  as conversas com os vaqueiros, as sensações, as dificuldades e tudo que brotasse daquele mundo que ele reencontrava depois de anos vivendo como diplomata no exterior.
As cadernetas, hoje parte do acervo do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo, foram reunidas em dois diários, que Rosa chamou de A Boiada 1 e A Boiada 2. As anotações seriam utilizadas como elementos de suas próximas obras  entre elas, Corpo de Baile (lançado em 1956), Tutaméia (de 1967) e Grande Sertão: Veredas (1956).
No dia 16 de maio, o escritor chegava à fazenda Sirga, de seu primo Francisco Moreira, em Três Marias. Três dias mais tarde, a boiada partiria para a viagem, fazendo seu pouso em várias fazendas e vilarejos da região.
Rosa fez questão de acompanhar o dia-a-dia dos vaqueiros em tudo, comendo da mesma comida  carne-seca, toucinho, feijão e arroz com pequi  e dormindo nos mesmos locais. Em Barreiro do Mato, por exemplo, teria dormido dentro de uma grande forma de rapadura, um enorme tacho côncavo, e em vários outros locais passou a noite em colchões de palha de milho, comuns naquela época.
Já próximo a Cordisburgo, cidade em que nasceu e etapa final da viagem, a comitiva teve um encontro com uma equipe da revista O Cruzeiro, que cobria a viagem do já famoso autor de Sagarana, lançado em 1946.
As obras de Rosa possuem uma infinidade de referências diretas e indiretas à viagem de 1952. A principal delas está em Corpo de Baile, mais especificamente na novela "Uma Estória de Amor", inspirada na vida de Manuel Nardy, um dos oito integrantes da comitiva. Ele aparece transfigurado no personagem de Manuel Jesus Rodrigues, o Manuelzão. As semelhanças vão além do nome: estão em acontecimentos da vida do vaqueiro.
Outro vaqueiro que se destacou durante a viagem foi João Henrique Ribeiro, o Zito. Embora não tenha ficado tão famoso quanto Manuel, era Zito quem seguia o tempo todo ao lado do escritor.
Assumiu as funções de guia e de cozinheiro da tropa e tirava quase todas as dúvidas de Guimarães Rosa. Embora não tenha resultado na criação de um personagem, a relação entre Zito e o escritor também teve seu destaque na obra.
A perspicácia do vaqueiro chamou tanto a atenção de Rosa que, anos mais tarde, ele o homenagearia em Tutaméia, lançado no ano da morte do escritor. Em um dos quatro prefácios, Guimarães Rosa transcreve trechos de conversas com o vaqueiro e elogia sua inteligência e criatividade.
Dono de uma memória prodigiosa, Zito guardou detalhes da viagem de Guimarães Rosa que ajudaram a reconstituir cada passo da aventura vivida pelo escritor – incluindo nomes, lugares e datas. “Ele queria saber de tudo. Se visse aquele pau ali, queria saber o nome daquele pau. Se ouvisse uma conversa, queria saber do que a gente falava. E ia escrevendo tudo nas cadernetas que levava penduradas no pescoço”, disse, em 2001.
Segundo o vaqueiro, Rosa teria dito que pagaria seus estudos no Rio de Janeiro, proposta que ele recusou. “Queria mesmo era ser vaqueiro”. Zito morreu aos 65 anos, em 2002, em Três Marias. Foi o penúltimo dos oito vaqueiros da tropa a morrer – o último foi Sebastião Leite, em 2005.